28 de Abril de 2010

 

A Catedral


Entre brumas, ao longe, surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a benção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Poe-se a luz a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu tristonho
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu e todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem acoitar o rosto meu.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

 

 

Análise do poema

 

            Alphonsus Henrique da Costa Guimarães nasceu em 1870, em Minas Gerais. Aos 18 anos, assiste à morte de Constança, sua noiva; o amor por Constança estará presente em toda sua vida e obra poética. Aos 27, formado em direito, casa-se; anos depois é nomeado juiz em Mariana, MG, de onde não mais sairia. Morre em 1921.

 

            Segundo um dos maiores poeta simbolista francês, Paul Verlaine, disse no poema “Arte Poética”, que “antes de tudo, a música preza/ portanto, o ímpar. Só cabe usar/ o que é mais vago e solúvel no ar/ sem nada em si que pousa ou pesa.” Fica evidente a presença da música logo nos primeiros versos e da vaguidade. Em “entre brumas, ao longe, surge a aurora./ o hialismo orvalho aos poucos se evapora.”, percebe-se palavras ligadas ao amanhecer ou à claridade. Isso significa a vaga lembrança em sonho com a amada, Constança, note que no final do segundo verso da primeira estrofe, a lembrança “aos poucos se evapora”, ou seja, o poeta volta-se para a realidade, que é como se ele fosse acordar, porém custa para que isso aconteça; pois é a única forma de ter contato com ela. Observe também que no final da estrofe o sino canta, este representa o estado da alma do poeta que está feliz, mas, ao mesmo tempo, está triste; feliz por ter boas lembranças e vivê-las em sonho e triste por saber que está morta.

 

            Nota-se em “pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!” que uma espécie de coro ou sua própria consciência está cantando aos “ouvidos da alma” a realidade. Na terceira estrofe, percebe que enquanto se acorda do sonho (este é o único meio de aproximar-se de ambas as mulheres, Constança e a virgem Maria, esta cujo poeta era devoto, comparava àquela pela semelhança da pureza, virgindade, etc. e daí o amor aparece sempre espiritualizado) e a visão da amada “segue a eterna estrada”. Constança é representada pela catedral ebúrnea tanto na primeira como nas estrofes seguintes (e essa repetição representa a presença constante da amada em seus sonhos); ela “aparece, na paz do céu risonho/ toda branca de sol” e depois “recebe a benção de Jesus”. Porém a consciência do poeta agora clama e não mais canta, vê-se uma gradação emocional, uma tensão.

 

            “Por entre lírios e lilases desce/ a tarde esquiva: amargurada prece/ põe-se a luz a rezar”, esses versos refere-se também à Constança e neles o poeta enaltece a figura da amada que até a natureza tem reverência por ela. “A catedral do meu sonho/ aparece, na paz do céu tristonho/ toda branca de luar”; ela continua com todas as características como bela, pura, perfeita etc., todavia a concepção utópica dele muda “céu tristonho”, alguma coisa começou a entrar em desequilíbrio. Outrora tudo era perfeito, pois era como estivesse sonhando e no sonho o irreal torna-se real. Então, isso o leva ao desespero, porque queria ficar com ela, mas esse mundo vai se desfazendo à medida que vai se acordando. A tensão aumenta cada vez mais e “o sino chora” ou o estado da alma do poeta desfaz-se levando-o à catarse.

 

            Por conseguinte, “o céu é todo trevas: o vento uiva./ do relâmpago a cabeleira ruiva/ vem açoitar o rosto meu”; nesses versos, o poeta acorda ou sua consciência e aquela reminiscência logo se evapora. Ela “afunda-se no caos do céu tristonho/ como um astro que já morreu”; “e o sino geme em lúgubres responsos:/ “Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!” Além do que já foi dito, esses versos mostra a autocompaixão do poeta no badalar do sino.     

                                 

 

 

publicado por poetaaaronlino às 16:17 link do post
Abril 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
Preciso falar com você gostaria agendar uma ...
Inesquecível.
Não exatamente, eu sou um simples filósofo e fui m...
logo se vê que quem entende de tudo é você, e não ...
Acha mesmo que a matéria "inorgânica" não pode cri...
gostei muito de suas frases filosoficas bastante i...
Rapaz concordo plenamente com você. esse papo de i...
Também concordo plenamente com seu pensamento. A i...
Acho magnifico esse seu grande desejo pela poesia....
Essas eleições realmente foram complicadas, uma ve...
blogs SAPO